Já me perguntei quem sou eu inúmeras vezes – já nem sei quantas – e em todas elas dei respostas diferentes. Isso no começo me incomodava, pois responder a mesma pergunta de forma diferente fazia eu me sentir volúvel, inconstante, mutável e inexato.
Eu nunca tive sonhos pequenos; eu nunca tive uma visão rasa; eu nunca quis estar na média, eu preferia estar abaixo dela, a fazer parte dela. Não que eu queira ser diferente ou coisas do tipo, mas ser totalmente certinho, bonzinho não me dá prazer. Eu não sou nenhum vilão, longe disso, eu sou um ser humano bem humano mesmo, minha sinceridade ferina é quase que habitual e sei que ela assume extremos, nunca fica na média: ou ela é minha melhor qualidade ou meu pior defeito. Mas ainda prefiro uma verdade amarga, do que uma mentira doce. Não tenho sonhos comuns, tipo daqueles que todo mundo tem – sonhos de classe média mesmo – ter um apartamento confortável, um carro sedan do ano, viajar nas férias etc. Meus sonhos não cabem nesse contexto, e, aliás, em nenhum outro ligado a classes sociais. Eu ouso dizê-los: eu sonho morar em cada canto que me traga paz, eu sonho morar em todo lugar do mundo; eu sonho em amar todas as pessoas que quiserem e couberem no meu coração; eu sonho em dividir tudo que sei e aprender tudo que puder; eu sonho em me tornar melhor e humano cada vez mais; eu sonho em nunca poder responder a pergunta de quem eu sou.
Se um dia eu tiver a resposta para essa pergunto minha vida perderá todo o sentindo, pois não há nada absoluto e exato e, nunca ninguém saberá todas as respostas, mas saberá apenas o suficiente para ter certeza que a vida é única e que nem tudo pode e deve ser explicado e respondido. Pois as melhores coisas da vida não têm títulos, não tem explicação, não tem respostas. As melhores coisas da vida são sentidas e vividas naturalmente, são simples e não custam nada, aliviam a dor, tiram o peso e o cansaço, saram feridas, despertam sensações, aliviam tensões, salvam da morte.
Eu? Eu sou inexato, inconstante, mutável e ainda bem que sou assim. Pensando bem quem sou eu mesmo? Sou uma indefinição, uma “indescrição”, uma fuga de mim mesmo e quantas vezes me flagro sendo aquilo que eu nunca quis ser, me pego atuando em um papel meramente coadjuvante, me decepciono comigo mesmo e sigo sem saber ao certo o que e quem eu sou.
E assim vou seguindo com minhas incompreensões de mim mesmo e, com minhas metades, pois não sou um ser completo e nem poderia ser, não me limito, não me reprimo, sou metade anjo, metade demônio; metade santo, metade profano; metade rei, metade plebeu; metade menino, metade homem; metade masculino, metade feminino; metade seu, sou apenas eu.
Nenhum comentário:
Postar um comentário